quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Quando virei passarinho

Lindo foi entardecer junto com aquele dia! Lembro que tínhamos pouco dinheiro e muita vontade, e que contamos as moedas para comprar um sorvete na farmácia que ficava próximo a praça da bandeira. Não podíamos comprometer a passagem de volta, põe isso, compramos uma marca nova que tinha uma textura um pouco mais lingueta do que deveria, mesmo assim nos pareceu fabuloso! Tomamos o sorvete, sentadas na calçada,  enquanto decidirmos ir caminhando a praia. Não estava distante e a companhia valia ir pro Japão andando. Fomos a tempo de se despedir do sol. Lembro bem de sentarmos na areia e dos corpos meio empanados, e de com a noite toda derramada sobre nós nos entregarmos às lambidelas das ondas, e, livres dos olhos e dos pudores fazer isso livres também das roupas. Lembro ainda da volta pra casa, dos risos e das cócegas no espírito que faziam aquelas palavras. Depois um banho de chuveiro e a agua gelada que descia expulsando o sal dos poros, as toalhas limpas e as cobertas quentes fazendo da cama um ninho. Lembro do encaixe do corpo e dos espasmos de prazer madrugada a dentro, e lembro de no outro dia acordar meio passarinho cantando a manhã. Depois tempo e distância e a vida seguindo dia a dia sem sorvetes, risos ou ninhos. Mesmo assim, valeu a vida aquele dia!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

com(licença do)texto

Nem frase,
nem verbo,
 nem ponto,
nem virgula,
ideia central,
nada no texto,
ou no contexto
nada de gramática,
não mudo o escrito,
feito e refeito sem obrigação,
nada no predicado ou no sujeito,
e quem, mesmo assim quiser ser agraciado
com um texto cheio de palavras espremidas da alma,
reconstruídas dos fatos e com calma  processadas no coração,

não tem remédio, ou receita, e se dê por satisfeito, por ler  desse jeito!

Ridicula

Sabe peixe fora d’água
Tipo, passarinho sem ninho e em vez de ninho gaiola?
Aquela frase sem efeito,
Ou pior que isso fora do contexto?
Que lida nem provoca alvoroço,
Dada suas letras em destroço?

E a expectativa frustrada,
Como o sexo que no meio só tem a broxada,
Ou que o liquido nunca vem...
Sabe assim?

Quando você se produz no stile,
Sai como quem vai prum baile,
E na rua o riso é o que rola?

Quando você se olha ao espelho
E vermelha de chorar
Percebe que é tão ridícula
E que por mais que se esforce
Nunca, nunca irá mudar...

Pois se ridícula é a minha forma de ser,
Ridícula é que terão de me amar!


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Da escolha (na duvida)

Erguia os olhos na névoa dos fatos e era impelida pelo medo a fugir, ao tempo que as circunstancias lhe obrigavam a agir. Parecia, em um momento (e não só parecia como de fato era assim mesmo), que nenhuma escolha seria isenta da dor, e que a resolução de um problema implicava imediatamente na criação de outro, como quem se medica, tem efeito colateral e precisa de outra medicação de remedei o efeito causado pela primeira!
De qualquer modo, toda a sua liberdade não lhe dava a escolha de não escolher, apenas de decidir em que situação difícil se enredar.
Nesses momentos em que pulsava a vida e a humanidade em cada centímetro do corpo, a mente queria se encolher, mas sabia desde sempre que se encolher era a pior escolha possível. A única forma de ser melhor era decidir por qualquer merda que fosse, e armada de si mesmo encarar todas as consequências recolhendo daí o máximo de aprendizado possível.

Acendeu um cigarro, mordeu os lábios e foi, sem certeza nem duvida, foi apenas para o caminho que por um ou outro motivo, por uma ou outra miopia, lhe pareceu mais coerente. Foi sentindo nas costas, nos poros e nas ideias (sobretudo nessas) o imenso peso de ser gente! Como dói tanta humanidade! 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Têm isso e aquilo

Têm dia, que parece dois.
Têm laços, que parecem nós.
Têm medo, que antecipa o caos.
Têm gente que, ah... Têm gente...

Têm amor que parece raiva,
Têm sonho que parece dor,
Tem noite que parece o fim,
Tem ventos que só ventam em mim!

Têm beijo que é bem mordida,
Abraço que é estrangulamento,
Tem choro que é de estar feliz
Tem coisa mudando todo momento!

Tem males que vem para bem,
Têm bem que nem bom mesmo é,
Têm passos que levam pra trás,
Tem tudo onde a gente quer!

Tem tempo em que só dar preguiça,
Tem horas que eu nem existo,
Momentos em que a mente enguiça,
Há dias em que quase desisto.
Têm tempo... Há tempo, dá tempo!




domingo, 25 de agosto de 2013

Os poemas que saltam das entranhas ou a sensação da tarde

Os poemas saltam das entranhas quando a noite cai! Escorrem por todos os meus poros os poemas quando o tempo quer brincar de eterno. Não daqueles eternos que atemorizam com o pra sempre, mas daquele tipo de eterno que mesmo passado ainda é!
Quando se esvai o momento sublime do reduto, fica no compartimento esse ar distinto de todos os outros, esse que circula os pulmões e no movimento de expirar deixa sabor. Talvez por displicência, talvez por pura presunção ou quem sabe mesmo, só porque,  tendo passado não se foi por completo. O ar que ficou aqui até textura tem, tem solidez ao ponto de me acariciar a face e novamente me aflorar os seios como outrora fizeram as mãos.

Esse ar que ventila no ouvido um determinado tom de voz,  e reverbera no espaço empurrado pelos passos de uma dança. Esse ar que se tivesse tempo seria com certeza criança pois faz cócegas no estomago, esse ar entorpece a alma e faz com que mesmo com a urgência das obrigações, mesmo com as louças por lavar, artigos por fazer, livros para ler e todo o resto da vida urgindo cuidados, os poemas saltem de mim, porque nada é mais urgente que o amor!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Miragem

Não se trata de recriar imagens, de relembrar eras ou de retratar o que se foi, muito menos alguém poderia dizer que era a inércia que sublimada no espaço deixava o mundo escorrer estranho pelas entranhas. Nas entradas que conduziam aquele paralelo existia torpor e um pouco de medo. Mesmo assim eram as miragens que faziam sempre seguir. As miragens eram a criação de um novo mundo, tão real que produziam desejo, tão material que tinha saliva e suor! Ela sentou encolhida enquanto escolhia a próxima cena. Concentrava-se no contexto pra produzir o novo enredo, e da criação do depois fez seu melhor passatempo, destruindo os casarões antigos que residiam em suas memórias e de material do impossível fabricava novos castelos. Porque a invenção do passado não é tão forte quanto a potencia do porvir, e a experiência no final nos serve mesmo para chacota com os nossos erros, para que enfim, condutora do transporte que corre pela estrada que se inventa a cada passo, possa se despir do que se foi e finalmente entrar em contato com o que se é! A vida é movimento de criação! Possibilidade de invenção. Cócegas na imaginação!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Pedido de ruamento

Quer “ruar” comigo?
Nada de casar, que casar baby, não nos cabe
E nem haveríamos de caber em nenhuma casa
A rua é a extensão de nós mesmas
De nossos copiosos desejos
Em mim, em ti, no mundo...

A rua onde os bêbados vacilam
Os cães cagam
E os apaixonados se abraçam
 E o lugar ideal do exercício político do querer proibido!

Por isso te pergunto:
-  quer ruar comigo amada livre?

E ruadas descobrir que podemos ser felizes...

Cinco minutos: sobre o sentido

Conheci uma mulher que não enxergava mas que via tudo tão bem que chegava a me constranger quando se dirigia pra mim, como se sua leitura de mim chegasse até o fundo da alma. Ela me falou em breves minutos nos quais esperávamos o ônibus da sua vida de tirar som da flauta pra fazer sarar suas dores. E haja notas para tantas dores que se deitam no cotidiano querendo se fazer culpas. As culpas dela, nem dela deveriam ser, nem culpas deveriam ser! Deviam antes ser um tipo de melodia chorosa que ameniza a sangria do peito, dessas que faz lembrar a tristeza só para lembrar da esperança. Quando ela foi, deixou muito mais em mim do que muitas e prolongadas relações. Isso tudo em cinco minutos. 

sábado, 10 de agosto de 2013

...



Pular do penhasco
E só depois de mortalmente ferida
Descobrir da tal ausência de asas...

Fugir para longe
E apenas quando voltar
Perceber que não se tem mais casa...

Esquecer de lembrar
E depois de um tempo perceber
Que a memória é poço fundo que não se tapa...